domingo, 27 de abril de 2014

Sambas de enredo com temática afro-brasileira, segundo Luiz Antonio Simas


Luiz Antonio Simas
Recebi agorinha uma mensagem pedindo uma lista básica de sambas de enredo com temática afro-brasileira. Fiz uma listinha rápida, com as coisas que lembro de cabeça - por isso alguma data pode estar equivocada - e gosto com maior ou menor intensidade (os que detesto, não citei). Quando a temática negra aparece diluída em meio a outros temas, não cito. Exemplo: Glórias e grças da Bahia (Império, 1966) é o primeiro samba que cita um orixá (Iemanjá). Cita, entretanto, Rui Barbosa, Maria Quitéria e similares. Não entra. Heróis da Liberdade fala da abolição, mas fala de muito mais coisas fora da temática. Só listei sambas de desfiles oficiais. Os básicos, para mim, vão abaixo (observem que há enredos repetidos). Lembro que é uma lista absolutamente pessoal, limitada pelo meu gosto:
Navio negreiro (Vila Isabel, 1948, e Salgueiro, 1957)
Quilombo dos Palmares (Salgueiro, 1960, Viradouro, 1970, e Unidos de Padre Miguel, 1984)
Chico Rei (União de Vaz Lobo, 1960, Salgueiro, 1964, e Viradouro, 1967) Ganga Zumba (Unidos da Tijuca, 1972)
Chica da Silva (Salgueiro, 1963)
História do negro no Brasil (Lucas, 1968)
Valongo (Salgueiro, 1976, e Unidos de Padre Miguel, 1988)
Galanga, o Chico Rei (Unidos de Nilópolis, 1982)
Ganga Zumba, raiz da liberdade (Engenho da Rainha, 1986)
Do yorubá à luz... (Salgueiro, 1978)
Criação do mundo na tradição nagô (Beija-Flor, 1978)
Por que Oxalá usa ekodidé (Acadêmicos do Cubango, 1984),
Logun, príncipe de Efan (Arranco do Engenho de Dentro, 1977)
As três mulheres do rei (Império da Tijuca, 1979)
A visita do Oni de Ifé ao Obá de Oyó (Unidos do Cabuçu,1983)
O sonho de Ilê Ifé (Viradouro, 1984)
No mundo encantado dos deuses afro-brasileiros( Unidos da Tijuca, 1976)
Magia africana no Brasil e seus mistérios (UNndos da Tijuca, 1975)
O misticismo da África para o Brasil (Império da Tijuca, 1971)
Ritual afro-brasileiro (União da Ilha, 1971)
Lendas e festas das iabás (União da Ilha, 1974)
Oxumaré, a lenda do arco-íris (Imperatriz Leopoldinense, 1979)
Dom Obá II, rei dos esfarrapados, príncipe do povo (Mangueira, 2000)
De Daomé a São Luís, a pureza mina-jeje (Unidos do Cabuçu, 1981)
Kizomba, festa da raça (Unidos de Vila Isabel, 1988)
Cem anos de liberdade... (Mangueira, 1988)
Sou negro, do Egito à Liberdade (Beija-Flor, 1988)
Templo Negro em tempo de consciência negra (Salgueiro, 1989)
Oferendas (Ponte, 1984)
Pleito de vassalagem a Olorum (Unidos do Viradouro, 1974)
Olubajé, a festa da libertação (Difícil é o Nome, 1994)
Orum-Ayê (Boi da Ilha, 2001)
Ewé (Inocentes, 2008)
Geledés, o retrato da alma (Arranco do Engenho de Dentro, 2006),
Áfricas, do berço real à corte brasileira, (Beija-Flor, 2007)
Suprema Jinga(Império da Tijuca, 2010),
O reencontro entre o céu e a terra no reino do Alafin de Oyó (Unidos de Padre Miguel, 2013)
Uma epopéia africana (Cubango, 2014)

Alfredo Volpi

Alfredo Volpi, o pintor das bandeirinhas! (6 fotos)
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Poemas de hoje

VISITA
Que ela chegue sem clarins ou trombetas,
entre como facho de luz
pelas gretas da janela
e atravesse o quarto
na sua claridade.

Que ela chegue
inesperada,
como a chuva
na tarde calorenta
e faça subir o odor
de poeira molhada.

Que ela chegue
e se deite ao meu lado,
sem que a perceba.
Que me lave
com água de fonte
e me cubra
com o bálsamo branco
do silêncio.

Donizete Galvão, do livro Mundo Mudo (2003)


DA ETERNIDADE 

A eternidade é feita de pássaros
que riem do voo em falso
dos homens.

Planar além dos rochedos
é anoitecer
desinteressada perenidade.

E não precisar de relógio
pra se descobrir presente

Nem contemplar o passado,
fez invisível do tempo.

O que há de mais seguro
no alvará da incerteza
que levita?

O futuro tem asas,
repete o poeta,
timidamente. (Antonio Mariano)


http://itunes.apple.com/br/album/minha-alma-paz-que-eu-nao/id262492743?i=262493375

sexta-feira, 25 de abril de 2014

lunograma


"lunograma", intradução de Augusto de Campos para poema de Musset, publicado em DESPOESIA

O valor do vento



"Está hoje um dia de vento e eu gosto do vento
O vento tem entrado nos meus versos de todas as maneiras e
só entram nos meus versos as coisas de que gosto
O vento das árvores o vento dos cabelos
o vento do inverno o vento do verão
O vento é o melhor veículo que conheço
Só ele traz o perfume das flores só ele traz
a música que jaz à beira-mar em agosto
Mas só hoje soube o verdadeiro valor do vento
O vento actualmente vale oitenta escudos
Partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto"

NUANCES (Gregório Duvivier)

Assento: põe-se embaixo. Acento: põe-se em cima.

Barco: qualquer embarcação. Barca: embarcação lenta.

Ciúme: inveja de afeto. Inveja: ciúme de coisa.

Contagiante: alegria. Contagiosa: doença.

Corda: em qualquer lugar. Cabo: a corda, quando num barco.

Cumpridas: as leis não são. Compridas: as leis são.

Depressão: tristeza de rico. Desespero: tristeza de pobre.

Despensa: armário. Dispensa: o que você não guarda na despensa.

Discriminar: o que é feito com o usuário de drogas. Descriminar: o que deveria ser feito com ele.

Ecologia: proteger o verde. Economia: multiplicar o verde.

Em trânsito: em movimento. No trânsito: sem movimento.

Eu te amo: quando se ama. Eu também: quando não se quer cometer uma grosseria.

Euforia: alegria barulhenta. Felicidade: alegria silenciosa.

Excelência: perfeição. Vossa Excelência: crápula.

Fantasia: roupa no Carnaval. Figurino: na televisão. Caretice desnecessária: no teatro contemporâneo.

Golfinho: baleia extrovertida. Tubarão: golfinho sociopata.

Golpe: revolução pra quem sofreu. Revolução: golpe pra quem participou.

Gravar: quando o ator é de televisão. Filmar: quando ele quer deixar claro que não é de televisão.

Grávida: em qualquer ocasião. Gestante: em filas e assentos preferenciais.

Guardar: na gaveta. Salvar: no computador. Salvaguardar: no Exército.

Javali: porco de raiz. Porco: javali metrossexual.

Língua: dialeto de rico. Dialeto: língua de pobre.

Menta: no sorvete, na bala ou no xarope. Hortelã: na horta, no mojito ou no suco de abacaxi.

Mentira: na vida real. Inverdade: na política.

Mitologia: religião sem adeptos. Religião: mitologia com seguidores.

Peça: quando você vai assistir. Espetáculo: quando você está em cartaz com ele.

Policial: em qualquer ocasião. Tira: quando você está sendo dublado.

Recife: quando você não é de Recife. Ricife: quando você é de Recife. Récife: quando você não é de Recife e está imitando alguém de Recife.

Teatro: em São Paulo. Tchiatro: no Rio. Tiatro: em Ricife. Téatro: na Bahia.

Ukulele: cavaquinho hipster. Rabeca: violino bêbado.

Vocabulário: léxico de quem não tem muito léxico. Léxico: vocabulário de quem tem muito vocabulário.

Breve ensaio no intervalo de duas citações ligeiras


"A rebeldia é um bem absoluto. Sua manifestação na linguagem chamamos poesia, inestimável inutensílio" (Paulo Leminski, 1986)

"O poema é antes de tudo um inutensílio", "Os bens do poeta: um fazedor de inutensílios [...]" (Manoel de Barros, 1980)

[P.S. - só para tornar as coisas mais complexas, para não cairmos em uma contraposição entre um Leminski urbano e político em diferença a um Manoel de Barros de uma poética exclusiva da natureza, essa passagem de Manoel de Barros, de 1970 - "tudo aquilo que nos leva a coisa nenhuma/ e que você não pode vender no mercado/ como, por exemplo, o coração verde/ dos pássaros,/ serve para poesia [...] tudo aquilo que a nossa/ civilização rejeita, pisa e mija em cima,/ serve para a poesia/ [...] Pessoas desimportantes/ dão para a poesia/ qualquer pessoa ou escada/ [...] o que é bom para o lixo é bom para a poesia"]
Alberto PUCHEU